quinta-feira, 22 de novembro de 2012

21 - O Direito no Brasil Republicano - Parte III: Instabilidade constitucional e direitos sociais na Era Vargas (1930-1945...1964)


A legislação trabalhista, implementada no Brasil pelo governo Vargas (1930-1945), foi um conjunto de leis que concedia determinados direitos aos trabalhadores, como jornada de oito horas de trabalho, aposentadoria, descanso remunerado, férias, etc. Ao tomar o poder, em 1930, Vargas abraçou a causa dos trabalhadores e apresentou essa legislação como uma dádiva, um ato de generosidade, e logo se criou, em torno do presidente, um mito: o de “pai dos pobres”.

As constituições de 1934, 1937 e 1946 criaram uma certa instabilidade política no Brasil ao tentarem conciliar dois elementos aparentemente antagônicos:  Desenvolvimento Capitalista e Direitos Trabalhistas.

Essas constituições teriam sido “constituições de compromisso” ou “constituições dilatórias”, ou seja, tinham como objetivo retardar um determinado processo conflituoso que, mais cedo ou mais tarde, se acentuaria.

Mas vamos seguir a linha dos fatos para entendermos melhor essa questão:   

Assim que tomou o poder, em 1930, Vargas destituiu os governadores dos estados e nomeou interventores de sua confiança (que nomearam prefeitos para os municípios) até que uma nova Constituição fosse elaborada, garantindo, novamente, a autonomia federalista aos estados.

Em Pará de Minas, quem chefiou o movimento político da Aliança Liberal, que colocou Vargas no poder, foi Benedito Valadares, que assumiu a prefeitura do município em 1930, permanecendo ali até março de 1933, quando se exonerou para fazer parte da Assembléia Nacional Constituinte, que elaborou a Constituição que seria promulgada em 1934. 

Em 1932, o estado de São Paulo se revoltou contra o governo federal. (Lembrem-se que a Revolução de 1930 afastou a elite cafeicultora paulista do poder). Muitos autores acreditam que  essa revolta, conhecida como “Revolução Constitucionalista de 1932”, do estado de São Paulo contra o governo federal (exigindo uma constituição que garantisse, novamente, o federalismo, a autonomia para os estados), não passou de uma tentativa de derrubar Vargas e restaurar o Partido Republicano Paulista novamente no poder. A Revolução foi violentamente reprimida pelas tropas do governo.

Em 1932, Vargas promulgou a nova Lei Eleitoral, que estabelecia o voto secreto, concedia às mulheres o direito de votar e serem votadas, e criava a Justiça Eleitoral, para garantir a transparência e a idoneidade do processo eleitoral, o que na República Velha não existia.

Foi criada também nos anos 30 a representação classista: 40 deputados da Assembléia Legislativa Federal seriam eleitos pelos sindicatos patronais e de trabalhadores, repartidos assim: 17 empregadores, 18 empregados, 3 profissionais liberais e 2 funcionários públicos. Esses 40 deputados classistas se juntariam a 214 deputados eleitos pelo povo, pelo voto direto. (Muitos autores afirmam que essa foi uma estratégia de Getúlio Vargas para frear o avanço do Partido Comunista, que tinha como objetivo tomar o poder e implantar o comunismo no Brasil).

Os comunistas eram totalmente contrários aos interesses da burguesia capitalista, pois seu objetivo era tomar o poder e acabar com a propriedade privada no país: tudo passaria a pertencer ao Estado, que garantiria uma distribuição igualitária das riquezas e todos os serviços básicos a 100% da população – era essa, pelo menos, a proposta comunista.

É claro que isso não era do interesse da burguesia brasileira, que estava ao lado de Getúlio Vargas no poder, embora sempre em atritos com o presidente por causa dos direitos trabalhistas garantidos ao trabalhador. Esses direitos a burguesia podia até tolerar, mas o comunismo, não; e Vargas era anti-comunista, porque ele queria fortalecer o capitalismo no Brasil, a industrialização, garantindo ao povo (mais como estratégia de poder do que bondade) os direitos sociais/trabalhistas.    

Embora as leis trabalhistas tenham criado o salário mínimo, o domingo remunerado, as férias remuneradas, etc., favorecendo os trabalhadores, a lei eleitoral que as acompanhou diminuiu de forma significativa o poder dos sindicatos, que eram os órgãos de representação das classes trabalhadoras. O governo federal ajudava os sindicatos com todo o apoio logístico necessário para que eles elegessem deputados sindicalistas, dentro do sistema de representação classista, e, como estava previsto, em 1934 pessoas ligadas aos sindicatos foram eleitas para o Congresso Federal. Esses deputados eleitos pelos sindicatos caíram, então, na esfera de influência dos outros deputados e do próprio presidente, que tinha muitos aliados no Congresso, e muitos deles acabaram se tornando “Pelegos Sindicais”, uma espécie de "amortecedor" entre o governo e o sindicato. Isso diminuía o poder do sindicato, órgão máximo de representação dos trabalhadores, e, é claro, diminuía a possibilidade de uma união entre os trabalhadores sindicalizados e o Partido Comunista contra o governo capitalista de Vargas.

Diante dessa situação, o Partido Comunista Brasileiro começou a organizar um movimento no sentido de tomar o poder à força, tirar Vargas do poder e implantar um governo comunista no Brasil, com o apoio de alguns elementos do Exército. Foi a chamada “Intentona Comunista de 1935”, que teve como um de seus principais articuladores Luís Carlos Prestes, um dos maiores líderes comunistas que o Brasil já teve, e sua esposa, Olga Benário Prestes (alemã, judia e comunista, presa pelo governo Vargas e devolvida ao seu país de origem, onde foi condenada à morte).

Essa tentativa desesperada dos comunistas tomarem o poder serviu de pretexto paraVargas decretar estado de sítio e reprimir violentamente o movimento. Cerca de 6.000 pessoas foram presas.

O mandato de Getúlio Vargas deveria terminar no começo de 1938, quando seriam realizadas novas eleições presidenciais. Na verdade, em 1934 já devia ter acontecido uma eleição presidencial, mas a Assembléia Constituinte (que elaborou a Constituição de 34) elegeu Vargas para um outro período na presidência, que duraria até o começo de 1938 (a Constituição permitia isso). 

O que aconteceu foi que, em 1937, os aliados de Vargas anunciaram a descoberta de um plano terrorista atribuído aos comunistas, cuja execução custaria a vida de centenas de pessoas. O plano, como foi constatado posteriormente, era falso, mas serviu de pretexto para Vargas dar um golpe de estado e instituir uma ditadura, que ficou conhecida como Estado Novo, em novembro de 1937. 

O que nós vamos destacar desse governo ditatorial de Getúlio Vargas, que vai de 1937 até 1945, são as novidades no campo do direito: primeiro, a Constituição de 37 (autoritária, centralizadora), que substituiu a Constituição de 34 (democrática, federalista); depois, o Código de Processo Civil, de 1939; o Código Penal, de 1940; o Código de Processo Penal, de 1941; e a CLT – Consolidação das Leis Trabalhistas, de 1943.

Vamos começar pela Constituição de 37, a chamada “Polaka” (por ter sido influenciada pela Constituição nazista polonesa de 1935). Essa Constituição foi elaborada com o objetivo de concentrar poderes nas mãos do presidente, com o pretexto de reprimir a oposição comunista. A constituição de 1934 era federalista, garantindo a repartição das competências entre os estados federais e a União federal. A constituição de 1937 era centralizadora, autoritária, fechou as assembléias legislativas estaduais e anulou a autonomia dos estados, dando ao presidente autoridade para nomear interventores de sua confiança para os seus governos.

Aqui em Pará de Minas, em 1935, Benedito Valadares tinha sido escolhido pela Assembléia Legislativa do Estado de Minas Gerais para ser governador, e isso aconteceu em todos os estados da União – não havia ainda eleição direta para governador nos estados: quem escolhia o governador era a Assembléia Legislativa do estado –, e quando Vargas deu o golpe em 37 e passou a nomear interventores para os estados, Benedito Valadares foi o único governador mantido no seu cargo, por ele ter apoiado e participado ativamente da Revolução de 30, da repressão à Revolução Constitucionalista de 32 e do golpe de 37.

O Estado Novo foi uma ditadura do chefe do Executivo, constitucional apenas nos aspectos da Constituição mais repressores e autoritários (naqueles menos repressores, ela não foi aplicada).

Logo instituiu-se o "estado de emergência", que aumentava ainda mais os poderes do Presidente, permitindo ao Estado invadir casas, prender pessoas consideradas contrárias ao regime e expulsá-las do país. Os crimes políticos passaram a ser punidos com pena de morte. As Forças Armadas, sob o controle do presidente, passaram a controlar a sociedade, com a ajuda da Polícia Secreta (chefiada por Filinto Müller), especializada em torturas e assassinatos. Além disso, instituiu-se a censura prévia – só seria liberado para a imprensa o que o governo autorizasse.

Dois grandes escritores brasileiros que sofreram nos porões da ditadura varguista foram Jorge Amado (que era comunista, autor de um romance nos anos 30 que foi considerado subversivo pelo governo: “Subterrâneos da Liberdade”) e Graciliano Ramos, autor do livro “Diários do Cárcere”, escrito durante o período em que esteve na prisão.

A Constituição de 1937 manteve os direitos sociais/trabalhistas; aliás, foram esses direitos, garantidos pela constituição, que mais contribuíram para a popularidade de Getúlio Vargas durante a Ditadura. E temos que reconhecer que ele soube usar muito bem essa imagem de “pai dos pobres”. Através do DIP - Departamento de Imprensa e Propaganda, controlado pelo governo, Vargas conseguiu popularizar essa imagem, difundindo uma ideologia baseada na valorização do trabalho, do trabalhador, e na exaltação dos valores e símbolos nacionais.

Em 1939 foi promulgado o Código de Processo Civil, que regulamentava os trâmites processais e estabelecia as competências das autoridades judiciárias e tribunais em relação a questões de Direito Privado. Esse código veio complementar o Código Civil de 1916, regulamentando a atividade processual judiciária nessas questões.

Em 1940 foi promulgado o Código Penal, em substituição ao Código Penal de 1890, que havia sido feito às pressas logo após a proclamação da República. O Código Penal de 1940 era bem mais completo e refletia melhor a realidade brasileira, que, de 1890 a 1940, tinha mudado muito, exigindo uma legislação penal que melhor enquadrasse aquela sociedade.

Acompanhando o Código Penal, foi promulgado, em 1941, o Código do Processo Penal, que regulamentava os trâmites processuais e estabelecia as competências das autoridades judiciárias e tribunais em relação a questões criminais. Alguns aspectos do processo criminal que ganharam nova regulamentação: o inquérito policial, o exame de corpo de delito, perícias, interrogatórios, confissões, testemunhos, acareações, buscas e apreensões, citações, intimações, etc.

Também se destaca nesse período a promulgação da Consolidação das Leis do Trabalho, em 1º de maio de 1943. Em 1º de maio de 1939, o governo tinha criado a Justiça do Trabalho, e desde o início do governo provisório de Vargas, em 1930, várias leis trabalhistas já vinham sendo publicadas e aplicadas, mas foi só com a CLT, em 1943, que a justiça trabalhista ganhou maior estrutura e organização.  

O Estado Novo foi uma Ditadura inspirada nas ditaduras de Adolf Hitler e Benito Mussolini, na Alemanha e na Itália, respectivamente.

A semelhança entre o Estado Novo e as ditaduras alemã e italiana era muito grande: Governos fortes, personalistas – o que importa é a figura do líder –, autoritários, centralizadores; não podia haver oposição; e, além de tudo, eram governos radicalmente anti-comunistas e anti-democratas. 

Não se esqueçam que democracia não combina com ditadura. Democracia pressupõe a existência de partidos, eleições livres, liberdade de imprensa, mandatos presidenciais temporários, o que não existia nas ditaduras de Hitler, Mussolini e Getúlio Vargas. 

Pois bem, qual era a maior democracia do mundo nos anos 30? R: Os EUA, país que, na Segunda Guerra Mundial (que terminou em 1945), lutou contra as ditaduras de Hitler e Mussolini.

O Brasil acabou apoiando os americanos na guerra contra a Alemanha de Hitler e a Itália de Mussolini. Essa posição só se definiu após o ataque dos japoneses (aliados dos dois ditadores europeus) à base naval norte-americana de Pearl Harbor, em dezembro de 1941, quando, depois de uma reunião ministerial promovida por Vargas, ficou resolvido, por unanimidade, que o Brasil deveria declarar solidariedade aos Estados Unidos. 

Foram enviados para a Itália, com a Força Expedicionária Brasileira, vinte e cinco mil e trezentos homens, dentre eles Lutero Vargas (filho de Getúlio), dos quais quinze mil participaram da luta. Entre eles, quatrocentos e cinqüenta e um perderam a vida e cerca de dois mil foram feridos em combate. 

A vitória da democracia sobre a ditadura, em nível internacional, criou uma situação paradoxal para o governo Vargas. Para começar, já era estranho uma ditadura muito parecida com as que eram atacadas lá fora lutando ao lado de uma democracia na guerra. Isso se chama pragmatismo: “Vou apoiar o mais forte, depois a gente vê o que faz”. 

O que aconteceu foi que os EUA, juntamente com a França e a Inglaterra, duas outras democracias, derrotaram  Alemanha,  Itália e  Japão. As democracias venceram em nível internacional e, por isso, não tinha muito sentido a manutenção de uma ditadura inspirada, em grande parte, nos governos derrotados, aqui no Brasil. 

Para piorar ainda mais a situação do governo, a guerra levou a um desaquecimento da economia brasileira. Países como EUA, França e Inglaterra, que eram grandes compradores de produtos primários e semi-industrializados do Brasil, praticamente pararam de comprá-los, porque precisavam concentrar sua energia econômica na guerra, na compra e fabricação de armas e também na organização e manutenção do exército. Isso levou a uma crise no Brasil, o que, aliado ao paradoxo ditadura-democracia, levou à crise do próprio governo Vargas.

Em 1943, políticos liberais brasileiros lançaram propostas de mudança em um manifesto que ficou conhecido como o Manifesto dos Mineiros. No ano seguinte, o general Góes Monteiro, que havia apoiado Vargas na Revolução de 30 e, depois, no golpe de 37, reuniu-se com militares americanos, e voltou defendendo a Democracia. Diante desses fatos, Vargas não viu outra alternativa senão permitir uma abertura democrática: acabou com a censura, anistiou os presos políticos e marcou uma data para as eleições.

Nesse contexto de abertura, Vargas permitiu a criação de partidos políticos. Foram mais de 30, mas os principais foram: PSD (Partido Social Democrata) e UDN (União Democrata Nacional), que eram dois partidos de elite, ligados tanto à elite do campo quanto à da cidade; o PTB (Partido Trabalhista Brasileiro), que foi criado pelo próprio Vargas, e que contava com o apoio dos trabalhadores urbanos; e o PCB (Partido Comunista Brasileiro), que havia sido destituído pelo presidente em 1935, após a tentativa de golpe comunista, mas que voltou à ativa com essa abertura democrática. 

Só que antes mesmo das eleições o presidente foi deposto pelo Exército brasileiro, que havia se aliado aos EUA. Vargas era nacionalista, queria um capitalismo independente, autônomo no Brasil, e os EUA não queriam isso de forma alguma. Eles queriam que o Brasil continuasse dependente do capitalismo americano, porque o Brasil tinha matéria-prima abundante para as suas indústrias, mão-de-obra barata para trabalhar nas multinacionais e um mercado consumidor em expansão para os produtos industriais americanos. 

Portanto, não tinha sentido os EUA quererem a continuidade da política nacionalista de Vargas. 

De 1946 até 1964, o Brasil passou por um período de redemocratização, com uma nova constituição, a de 1946, que garantia presidentes eleitos pelo povo, federalismo, voto secreto universal, etc.; a CLT foi mantida, mas houve um avanço: foi criada a licença maternidade, o fundo de garantia por tempo de serviço, além de outros ganhos para o trabalhador, como as férias prêmio. 

O último presidente dessa fase foi João Goulart, deposto pelos militares em 1964.

Vídeo-aula: Era Vargas (1930-1945)

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Indicação de Leitura


Para as aulas dos dias 20, 22 e 27 de novembro, indico a leitura dos capítulos 2, 3, 4 e 5 do livro "A História das Constituições Brasileiras", de Marco Antonio Villa (p. 25 a 90), sobre as Constituições de 1891, 1934, 1937 e 1946.

Quanto ao trabalho que faríamos no dia 29 de novembro, todos os alunos receberão 5 pontos.

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Vídeo-aula: República Velha (1889-1930)

19 - O Direito no Brasil Republicano - Parte I: o contexto da República Velha (1889-1930)


O desgaste da monarquia autoritária de Dom Pedro II está relacionado, principalmente, com uma quebra de unidade da elite cafeicultora, a pressão dos militares por uma maior participação no poder, a pressão da Igreja por uma maior liberdade de ação – porque na Monarquia brasileira, a Igreja dependia do Estado –, e com o surgimento, em 1870, do Partido Republicano, liberal, que queria a implantação de uma república presidencialista e democrática (pelo menos para alguns republicanos) no Brasil – ou seja, queria derrubar a monarquia centralizadora e autoritária de Dom Pedro II, muito mais próxima do Absolutismo do que do Liberalismo.

A quebra de unidade da elite cafeicultura aconteceu quando os barões do café de uma determinada região de São Paulo, o Oeste paulista, sentindo que estavam sem voz ativa no poder (concentrado nas mãos dos cafeicultores de uma outra região, o Vale do Paraíba), começaram a apoiar a idéia de República como forma de alcançar o controle político do país.

Com relação aos militares, o que aconteceu foi que o Exército, vitorioso na Guerra do Paraguai, voltou querendo maior participação no poder político, o que lhe foi negado pelo imperador, fazendo com que o Exército se posicionasse contra a Monarquia e apoiasse a República, ao que tudo indica pelo mesmo motivo dos cafeicultores do Oeste paulista, ou seja: apoiavam a República como forma de alcançar o controle político do país.

Já com relação à Igreja, no Império brasileiro o que regia as relações entre o Estado e a Igreja era o regime de padroado, estabelecido pela Constituição de 1824: a Igreja devia obediência ao Estado e estava sujeita a uma série de imposições do Imperador. Atritos entre Igreja e Estado vinham acontecendo desde 1824, quando a Constituição foi outorgada; mas a Igreja só passou a bater de frente com o Governo quando o imperador mandou prender os Bispos de Olinda e Belém, que tinham expulsado das irmandades católicas todos os maçons, seguindo ordens do papa. Como a Constituição de 1824 permitia ao imperador acatar ou não as chamadas bulas papais, o imperador se posicionou do lado da Maçonaria e comprou uma briga com a Igreja. Esta, então, passou a apoiar as idéias republicanas, porque o republicanismo pregava a separação entre Igreja e Estado.

Outro elemento que agravou a situação da Monarquia foi o surgimento, em 1870, do Partido Republicano, que passou a defender a ideia de República no Brasil, resultado de um amadurecimento das idéias liberais no país, sobretudo entre uma elite de profissionais liberais, à qual logo se juntaram os cafeicultores do Oeste paulista, interessados, todos, em participar mais do poder.

A República foi proclamada em 15 de novembro de 1889: foi um golpe militar apoiado pelo Partido Republicano e pela elite cafeicultora do Oeste paulista – que, em parte, aderiu ao Partido Republicano – que derrubou a Monarquia; e como os militares estavam com as armas nas mãos, os dois primeiros governos da República foram governos militares: o primeiro, do Marechal Deodoro da Fonseca, e o segundo, do seu vice, Marechal Floriano Peixoto.

No entanto, esses dois grupos, o dos cafeicultores republicanos e o dos militares, tinham dois projetos distintos em relação à forma de organização do novo regime: os militares eram centralistas, queriam uma República centralizadora e autoritária (para restabelecer a ordem); e os fazendeiros de café eram, em grande parte, federalistas: queriam uma República descentralizadora, com liberdade para os Estados, eleições diretas para deputados (federais e estaduais), governadores de estados e presidente.

O domínio da República passou para as mãos dos cafeicultores paulistas em 1894, quando Prudente de Morais, representante desse grupo, assumiu a presidência, eleito pelo povo. Mas foi com Campos Sales, presidente que governou o Brasil de 1898 a 1902, que uma fórmula política duradoura de dominação foi finalmente elaborada: a "política dos governadores".

Os estados mais populosos do Brasil e, consequentemente, com o maior número de eleitores, eram os estados de São Paulo e Minas Gerais. Eram, portanto, esses estados que decidiam os rumos da política nacional. Se eles se unissem para eleger um presidente e um congresso federal, eles certamente conseguiriam eleger quem eles quisessem, devido ao número de votos. Se fosse somado o número de eleitores do resto do Brasil e esse número fosse confrontado com o número de eleitores de São Paulo e Minas, o número de eleitores do resto do Brasil seria menor que o número de eleitores de São Paulo e Minas.

A política dos governadores consistia no seguinte: o presidente da República (por exemplo, um paulista) apoiava, com todos os meios ao seu alcance, os governadores de São Paulo e Minas, e seus aliados locais (os fazendeiros de café em São Paulo e os pecuaristas de Minas, os chamados “coronéis”). Apoiava através de favores, verbas, apoio político, etc; e em troca desse apoio, os governadores dos dois estados garantiam a eleição do próximo presidente (apoiado pelo presidente no poder), obedecendo ao esquema que ficou conhecido como “política do café com leite”: se o anterior fosse paulista, um mineiro (Minas e São Paulo se alternavam no poder); e para o Congresso Federal, no Rio de Janeiro, os governadores dos estados garantiam a eleição dos candidatos que iriam apoiar o novo presidente da República.

Mas como os governadores conseguiam fazer com que o povo, o eleitor, elegesse o candidato do esquema “Café com Leite” e os deputados federais que apoiariam esse novo presidente?

As eleições na República Velha não eram, como hoje, garantidas por uma justiça eleitoral; por isso os fazendeiros de café de São Paulo e os pecuaristas de Minas, que eram aliados dos governadores de seus estados (pois recebiam favores desses governadores, assim como os governadores recebiam dos presidentes), tinham facilidade para persuadir a população de sua região a votar no candidato apoiado pelo governador do estado – que era, logicamente, o candidato apoiado pelo presidente da República –, no caso, um mineiro, se o presidente anterior fosse paulista, ou um paulista, se o anterior fosse mineiro.
 
O poder dos coronéis residia no controle que eles exerciam sobre os eleitores. Todos eles tinham o seu "curral" eleitoral, isto é, eleitores cativos que votavam sempre nos candidatos por eles indicados, pessoas apadrinhadas, que recebiam favores desses coronéis, geralmente a massa de pobres do interior. Assim, os votos despejados nos candidatos dos coronéis, que eram também os candidatos dos governadores e do presidente, ficaram conheci­dos como "votos de cabresto”. E quando o desejo dos coronéis não era atendido, eles o impunham com seus bandos armados - os jagunços -, que garantiam a eleição de seus candidatos pela violência.

Paralelo a tudo isso, durante a República do “Café com Leite”, ocorreu um processo de industrialização no Brasil, graças ao capital investido nesse setor pelos cafeicultores de São Paulo que, além do café, tinham um interesse muito grande em investir nas indústrias.

Durante as décadas de 1910 e 1920, a economia do Estado de São Paulo, embora ainda fortemente ligada ao café, deu um salto muito grande em relação à economia dos outros estados justamente devido a esse investimento na industrialização. Eram os cafeicultores de São Paulo que tinham capital para isso. E, para facilitar ainda mais esse processo industrial, os salários pagos aos operários eram baixíssimos, porque havia forte concorrência no mercado de trabalho: além dos imigrantes estrangeiros e dos brasileiros pobres brancos, havia agora um contingente enorme de ex-escravos disputando uma vaga nas indústrias (a abolição da escravatura ocorreu em 1888); por isso o salário era baixo: lei da oferta e da procura.

Para vocês terem uma idéia do crescimento da cidade de São Paulo, em 1872 ela tinha 23 mil habitantes. Em 1914, ou seja, 42 anos depois, a cidade de São Paulo já possuía 400 mil habitantes.

A cidade do Rio de Janeiro também se desenvolveu, mas graças, principalmente, ao fato dela ser a capital do Brasil, a sede da República, onde as decisões eram tomadas, e também ao fato de ser através do seu porto que o café brasileiro era exportado. A importância da cidade do Rio era tamanha no início do século XX, que durante o governo do presidente Rodrigues Alves (de 1902 a 1906), a cidade passou por um grande processo de urbanização: grandes avenidas foram criadas, praças, ruas alargadas, etc.

Mas a sorte estava mesmo era do lado da economia cafeeira. A República brasileira, de 1894 até 1930, foi uma República essencialmente agrária, dominada pelos interesses rurais, pelos fazendeiros, que detinham o poder através da política dos governadores, garantida pelo Coronelismo.

Por isso, os cafeicultores, quando perceberam, por volta de 1905, que o café estava tendo pouca saída no mercado internacional, pressionaram o presidente a desvalorizar a moeda frente à libra esterlina – que era a moeda inglesa – para facilitar a importação do café pela Inglaterra, que era a principal compradora dessa mercadoria.

Esse raciocínio serve também para os dias de hoje: se você desvaloriza o real frente ao dólar, o que acontece? Você vai tornar muito mais interessante para o americano comprar produtos brasileiros, porque se 1 dólar vale 4 reais, um produto de 20 reais vai custar 5 dólares, o que para o americano é mixaria. Mas, por outro lado, se nós quisermos comprar um produto americano e a nossa moeda está desvalorizada em relação ao dólar, esse produto vai nos sair muito caro.

Era isso que os cafeicultores queriam: a desvalorização da moeda brasileira frente à libra visando a atrair os compradores ingleses. Essa política foi implementada, mas ela trouxe uma consequência catastrófica para as indústrias, porque a maior parte do maquinário empregado na produção industrial era importada da Inglaterra, e o preço desse maquinário subiu de tal forma (devido à desvalorização) que muitas indústrias não conseguiram dar prosseguimento ao seu processo de expansão.

As exportações de café cresceram, mas não na mesma proporção que as importações de artigos industrializados, de modo que, para financiar essas importações, o governo começou a se endividar continua­mente.

Foi com o objetivo de mudar essa situação de dependência em relação a um único produto e também a própria política brasileira, que em 1930 ocorreu uma revolução no Brasil liderada por um partido denominado “Aliança Liberal”, formado por políticos do Rio Grande do Sul, Paraíba e Minas Gerais.

Mas o estado de Minas não estava no esquema da política dos governadores? Estava, mas saiu do esquema quando o presidente paulista Washington Luís escolheu o paulista Júlio Prestes para substituí-lo na eleição presidencial de 1930. Os mineiros, logicamente, não aceitaram a escolha, por que era a vez deles ocuparem a presidência. (Muitos historiadores afirmam, no entanto, que isso só foi uma desculpa para Minas sair de um navio político que afundava junto com a economia cafeeira, em séria crise).

Reagindo a essas intenções do Palácio do Catete, no Rio de Janeiro, Minas Gerais aproximou-se do Rio Grande do Sul, sugerindo o lançamento de uma candidatura gaúcha. As negociações se estenderam de janeiro a junho de 1929 e foi decidido que Getúlio Dorneles Vargas, governador do estado do Rio Grande do Sul, seria o candidato escolhido.

Em seguida, Minas e Rio Grande do Sul tentaram obter a adesão de Pernambuco, da Bahia e do estado do Rio de Janeiro, oferecendo-lhes em troca a vice-presidência. A proposta foi finalmente aceita pela Paraíba, e em 20 de setembro de 1929 realizou-se no Distrito Federal a convenção que fundou a “Aliança Liberal”, lançando as candidaturas de Getúlio Vargas, para a presidência, e do governador do estado da Paraíba, João Pessoa, à vice-presidência da República.

Nisso, o Exército, que havia perdido o poder com o fim da República Militar, em 1894, passou a apoiar a candidatura de Vargas, visando, ao que tudo indica, a obter, de novo, poder político.

O que aconteceu, como era de se esperar, foi que Getúlio Vargas foi derrotado nas urnas. Quem ganhou a eleição presidencial de 1930, de forma fraudulenta (como foi provado), segundo a “Aliança Liberal”, foi o candidato paulista, Júlio Prestes.

Essa derrota levou a Aliança Liberal, liderada por Vargas, a organizar um movimento revolucionário que partiu do Rio Grande do Sul, de Minas Gerais e da Paraíba, e que tomou conta de todo o país, com o objetivo de depor o presidente Júlio Prestes e colocar Getúlio Vargas no poder.

Em meados de outubro de 1930, a revolução já era vitoriosa em quase todo o país, restando apenas São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia e Pará sob o controle do governo federal. Em Minas Gerais, Getúlio Vargas contou com o apoio do governador Antônio Carlos e de Benedito Valadares Ribeiro, que chegou a organizar uma tropa de apoio à revolução em Pará de Minas. Essa tropa ficou alojada, à espera de ordens superiores, por 18 dias, no Centro Literário Pedro Nestor, na rua Direita.

Em 3 de novembro de 1930, um mês após a eclosão do movimento revolucionário, Getúlio Vargas chegava ao poder, como chefe do Governo Provisório da República. 

Tem-se início, então, a Era Vargas, que começou em 1930 e só terminou em 1945.

A Era Vargas foi um período de industrialização, porque Vargas apoiou a burguesia nacional, abriu espaço para ela no poder; mas foi também um período de populismo, porque, para se manter no poder, o presidente precisava do apoio das massas populares: por isso ele teve que favorecer o povo, principalmente a nascente classe operária brasileira. 

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

18 - Patrimonialismo versus Republicanismo



Para esta unidade, indico a leitura do capítulo 5 do livro "Raízes do Brasil", de Sérgio Buarque de Holanda, publicado em 1936: "O Homem Cordial". É um texto pequeno, mas difícil. Vai exigir de vocês uma leitura atenta e, na minha opinião, talvez, uma ou duas releituras. Vocês encontrarão o livro na biblioteca da FAPAM. Organizem-se para tirar as cópias. São só 11 páginas. (Não teremos notas de aula postadas neste blog).

Para quem quiser se aprofundar um pouco mais na visão do Brasil de Sérgio Buarque de Holanda (para poder, inclusive, questioná-la), o ideal é ler o livro todo, mas tem também um texto muito interessante do historiador e filósofo José Carlos Reis, da UFMG, no seu livro "As Identidades do Brasil", que eu recomendo a vocês (não como matéria de prova, mas como leitura complementar). Trata-se do capítulo 4: "Anos 1930: Sérgio Buarque de Holanda - A superação das raízes ibéricas" (da página 115 à 143). Esse livro encontra-se também disponível na biblioteca da FAPAM.

Vídeo: uma discussão sobre a História do Brasil


No vídeo, o historiador Marco Antonio Villa, autor do livro "A História das Constituições Brasileiras"

terça-feira, 6 de novembro de 2012

17 - O Direito no Brasil Imperial (1822-1889)


Para esta unidade, indico a leitura do capítulo 1 do livro "A História das Constituições Brasileiras", de Marco Antonio Villa (p. 13 a 23), sobre a Constituição de 1824. (A Biblioteca da FAPAM comprou alguns exemplares do livro).

Indico também a leitura do texto "Instituições, retórica e bacharelismo no Brasil", de José Wanderley Kozima, que faz parte do livro "Fundamentos de História do Direito", organizado por Antonio Carlos Wolkmer (disponível na Biblioteca da FAPAM). Na edição que eu tenho em mãos, é o capítulo 13.

Para visualizar a estrutura do Estado Monárquico Brasileiro (1822-1889), CLIQUE AQUI

Para consultar o texto da Constituição de 1824, CLIQUE AQUI

Um exercício interessante, que eu recomendo a vocês, é comparar a Constituição Brasileira de 1824 com a Constituição Francesa de 1791. Para consultar o texto da Constituição Francesa de 1791, CLIQUE AQUI

Não haverá nota de aula publicada no blog sobre esta unidade. Leia os textos indicados com bastante atenção.

Hoje à noite entregarei as avaliações corrigidas.

Imagem: D. Pedro I (1798-1834), primeiro imperador do Brasil

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Cronograma até a 3ª avaliação

01/11 (quinta-feira): Atividade em classe - 5 pontos
06/11 (terça-feira): Aula expositiva: O Direito no Brasil Imperial - A construção da ordem (1822-1889). Constituição de 1824
08/11 (quinta-feira): Aula expositiva: Patrimonialismo versus Republicanismo
13/11 (terça-feira): Aula expositiva: O Direito no Brasil Republicano - Parte I: República Velha (1889-1930)
15/11 (quinta-feira): Feriado
20/11 (terça-feira): Aula expositiva: O Direito no Brasil Republicano - Parte II: a República e o povo (1889-1930). Constituição de 1891
22/11 (quinta-feira): Aula expositiva: O Direito no Brasil Republicano - Parte III: Instabilidade constitucional e Direitos Sociais na Era Vargas (1930-1945). Constituições de 1934 e 1937
27/11 (terça-feira): O Direito no Brasil Republicano - Parte IV: as constituições de 1946 e 1967
29/11 (quinta-feira): Atividade em classe - 5 pontos. Tema: A constituição de 1988 (começar a pesquisar desde já)
04/12 (terça-feira): 3ª avaliação - 30 pontos